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NÚBIA "Resto-de-Feira"
Àquela paixão adolescente entregara sem saber todos os seus bens, presente e futuro. Entregara a honra, o direito de viver em família, de ter nome e sobrenome... de ter vida!
Há algum tempo eu saía de casa todos os dias pela manhã para me encontrar com as minhas primas Fabíola e Regina, filhas da minha Tia Tita, lá no comércio do pai delas, sob os cuidados de ambas no centro de Acari.
Ali, diariamente, batíamos bons papos e, como todo jovem, não tínhamos medo do tempo, nem da vida.
Minhas primas – e não falo pelo parentesco – são de boa índole. Atenciosas, simpáticas, responsáveis... possuem um coração enorme. Davam corda, como se dizia, a muita gente não enxergada por outros olhos.
Naquela nossa reunião diária, vários e variados dias, tínhamos uma pessoa postada de cócoras ante as nossas vistas. Era uma triste figura repetindo sempre que possível a mesma frase: “veja o que o orgulho me fez”.
Falo dessa figura a seguir.
Ela chegou em Acari ali pelo começo dos anos sessenta, em sua primeira passagem por nossa cidade. Veio anos após ter fugido da fúria do pai e da fraqueza de um rapaz que lhe jurara amor eterno e, depois de tê-la nua algumas vezes em seus braços, desprezara todos os seus sentimentos mais puros, trocando-a por outra e difamando-a.
O pai, sabedor do fato, expulsara-lhe de casa. Pior! Conduzira a pobre moça pela própria mão para o prostíbulo da cidade vizinha. Não olhara sequer para trás, quando saía do recinto após lhe proferir insultos e maldições, gritando-lhe para esquecer-se dele, da mãe, dos irmãos e da sua casa.
Naquele dia a mãe, mulher submissa, ficara chorando sentada no batente da entrada da grande casa da fazenda em algum ponto entre Currais Novos e Santa Cruz. Um terço na mão, uma oração no coração e um grito de “Deus te abençoe por aí, minha filha”, sufocado por soluços. O pai respondera com um olhar vermelho de cólera, antes de perguntar se a esposa gostaria de ir junto. Depois empurrara a moça com força tal que a pobre caiu sobre algumas pedras, cortando os joelhos. O pai a levantou pelos cabelos.
- Cadela!
Essa história eu ouvi por duas vezes da boca de cantos repuxados para baixo e de gengivas carecas. Seu nome? Núbia. Sobrenome? Resto-de-Feira. Foi assim que ela se definiu na terceira vez que morou em Acari: NÚBIA RESTO-DE-FEIRA.
Alta, cintura fina, rosto afilado, cabelos negros e lisos encostando nas nádegas, branca de face rosada, dentes limpos, olhos vivos num castanho claro, pernas grossas e com boa conversa de moça bem criada. Tais atributos davam à Núbia o privilégio de escolher com quem iria para a cama. E escolhia os mais belos, ou os mais ricos. Era vaidosa.
Em sua primeira passagem por nossa terra, no auge dos seus vinte e poucos anos, seis como profissional da cama, ainda no esplendor de sua forma física, Núbia cativava para o seu leito os homens mais ricos da nossa terra, os proprietários das terras embranquecidas e valorizadas pelo algodão. Em sua triagem deixava de fora pobres e também os mais velhos.
Na segunda passagem, já beirando os quarenta anos, novamente se servia da beleza e encantou alguns jovens em suas primeiras viagens ao mundo do prazer carnal. Mesmo assim, ainda orgulhosa, escolhia com quem se deitava.
Da terceira vez em nossa terra, já com o peso dos quase sessenta anos nas costas, não atraía para si outra coisa senão a compaixão. Inteligente se apelidou de Resto-de-Feira, ou seja, “aquilo que ninguém quer mais, coisa de pouco valor, já amassada, quase podre”, como ela mesma se definia.
Perambulava pedinte pelas ruas do centro de Acari. Tudo que dizia, além da frase sobre o orgulho era “uma esmolinha, pelo amor de Deus”, às vezes trocada por “você não tem uma roupinha velha que não queira mais?”.
Mas um dia ousou falar mais e, além de contar-me seu triste fado, me disse haver ganhado muito dinheiro. Se tivesse guardado seria rica. Mas desde a primeira vez que se apaixonara na vida, sempre o fizera de forma errada. Os homens a roubavam no capital, como o primeiro lhe roubara a honra. Àquela paixão adolescente entregara sem saber todos os seus bens, presente e futuro. Entregara a honra, o direito de viver em família, de ter nome e sobrenome... de ter vida!
E nunca apareceu alguém querendo lhe tirar da vida? Sim. Aparecera. Mas eram homens simples, pobres... o orgulho não deixara ir. Se tivesse de casar-se, teria que ser com alguém para ter o respeito do pai. Esse “alguém” jamais apareceu.
Dia após dia naquela luta deprimente, de falsas alegrias e sonhos desfeitos, e o que ficava sempre, confessou-me, era a esperança em sair da vida, coisa que só se deu quando nenhum homem lhe quis mais nos favores da lascívia. Nem os ricos, nem os pobres, nem os jovens, nem os velhos. Virou pedinte. Não tinha sequer sonhos, nem documentos. Perdera tudo de vez.
Esses papos nós batíamos na calçada da loja de Reginaldo Medeiros, para onde, quase todas as manhãs, Núbia também se encaminhava. As meninas davam-lhe alguns trocados e, o que mais lhe valia: atenção.
Em troca, elas recebiam da mulher conselhos de quem vivera os piores estágios de uma vida humana. Era a mesma ladainha, depois da aposentadoria forçada, repetida em um senso único de simplicidade, numa espécie de autoflagelação exercitando um humilhar-se a si própria, tão apurado quanto comovente: “veja o que o orgulho me fez”, reza diária e aconselhadora nos ouvidos das moças direitas.
Quando não estava com sua ladainha na boca, suas frases eram pronunciadas com os diminutivos pelo qual a vida lhe tratava.
- Núbia, o que você come? – perguntei.
- Umas sobrinhas, que eu cozinho numas panelinhas, com um foguinho de gravetinhos – respondeu-me.
- Onde mora?
- Debaixo de uma arvorezinha – confessou com a boca murcha, repuxada para baixo. – Mas durmo numa casinha abandonada, ali depois da ponte.
Um dia alguém veio e levou Núbia. Tantos anos passados afastada da família. Não viu a morte do pai a quem perdoou numa confissão que me fez.
- Perdoei o bichinho – com um resto de pão na boca, olhava para cima como quem procurava o pai no céu, ou trazia de volta as suas piores lembranças doendo-lhe no peito. – Tadinho - exclamava, talvez compreendendo os defeitos humanos.
Teve tempo de assistir a morte da mãe.
Depois, eu fiquei sabendo, os sobrinhos lhe tratavam com respeito e dignidade. Talvez tentando devolver-lhe as coisas perdidas pelo tempo que deu prazer e não sentiu nenhum.
A última notícia que dela tive, há uns quatro anos, contava da vida boa levada na antiga casa grande da fazenda do pai, bem vestida, bem cuidada, bem alimentada, aposentada, assim, recebendo um sobrenome enfim.
Dela guardo uma coisa: o cuidado que devemos ter com um bicho que mata em silêncio: o orgulho. Afinal, já não sou tão jovem.
Hoje talvez eu tema o tempo e a vida.
18/05/2013 Publicada por Jesus de Rita de Miúdo.
Àquela paixão adolescente entregara sem saber todos os seus bens, presente e futuro. Entregara a honra, o direito de viver em família, de ter nome e sobrenome... de ter vida!
Há algum tempo eu saía de casa todos os dias pela manhã para me encontrar com as minhas primas Fabíola e Regina, filhas da minha Tia Tita, lá no comércio do pai delas, sob os cuidados de ambas no centro de Acari.
Ali, diariamente, batíamos bons papos e, como todo jovem, não tínhamos medo do tempo, nem da vida.
Minhas primas – e não falo pelo parentesco – são de boa índole. Atenciosas, simpáticas, responsáveis... possuem um coração enorme. Davam corda, como se dizia, a muita gente não enxergada por outros olhos.
Naquela nossa reunião diária, vários e variados dias, tínhamos uma pessoa postada de cócoras ante as nossas vistas. Era uma triste figura repetindo sempre que possível a mesma frase: “veja o que o orgulho me fez”.
Falo dessa figura a seguir.
Ela chegou em Acari ali pelo começo dos anos sessenta, em sua primeira passagem por nossa cidade. Veio anos após ter fugido da fúria do pai e da fraqueza de um rapaz que lhe jurara amor eterno e, depois de tê-la nua algumas vezes em seus braços, desprezara todos os seus sentimentos mais puros, trocando-a por outra e difamando-a.
O pai, sabedor do fato, expulsara-lhe de casa. Pior! Conduzira a pobre moça pela própria mão para o prostíbulo da cidade vizinha. Não olhara sequer para trás, quando saía do recinto após lhe proferir insultos e maldições, gritando-lhe para esquecer-se dele, da mãe, dos irmãos e da sua casa.
Naquele dia a mãe, mulher submissa, ficara chorando sentada no batente da entrada da grande casa da fazenda em algum ponto entre Currais Novos e Santa Cruz. Um terço na mão, uma oração no coração e um grito de “Deus te abençoe por aí, minha filha”, sufocado por soluços. O pai respondera com um olhar vermelho de cólera, antes de perguntar se a esposa gostaria de ir junto. Depois empurrara a moça com força tal que a pobre caiu sobre algumas pedras, cortando os joelhos. O pai a levantou pelos cabelos.
- Cadela!
Essa história eu ouvi por duas vezes da boca de cantos repuxados para baixo e de gengivas carecas. Seu nome? Núbia. Sobrenome? Resto-de-Feira. Foi assim que ela se definiu na terceira vez que morou em Acari: NÚBIA RESTO-DE-FEIRA.
Alta, cintura fina, rosto afilado, cabelos negros e lisos encostando nas nádegas, branca de face rosada, dentes limpos, olhos vivos num castanho claro, pernas grossas e com boa conversa de moça bem criada. Tais atributos davam à Núbia o privilégio de escolher com quem iria para a cama. E escolhia os mais belos, ou os mais ricos. Era vaidosa.
Em sua primeira passagem por nossa terra, no auge dos seus vinte e poucos anos, seis como profissional da cama, ainda no esplendor de sua forma física, Núbia cativava para o seu leito os homens mais ricos da nossa terra, os proprietários das terras embranquecidas e valorizadas pelo algodão. Em sua triagem deixava de fora pobres e também os mais velhos.
Na segunda passagem, já beirando os quarenta anos, novamente se servia da beleza e encantou alguns jovens em suas primeiras viagens ao mundo do prazer carnal. Mesmo assim, ainda orgulhosa, escolhia com quem se deitava.
Da terceira vez em nossa terra, já com o peso dos quase sessenta anos nas costas, não atraía para si outra coisa senão a compaixão. Inteligente se apelidou de Resto-de-Feira, ou seja, “aquilo que ninguém quer mais, coisa de pouco valor, já amassada, quase podre”, como ela mesma se definia.
Perambulava pedinte pelas ruas do centro de Acari. Tudo que dizia, além da frase sobre o orgulho era “uma esmolinha, pelo amor de Deus”, às vezes trocada por “você não tem uma roupinha velha que não queira mais?”.
Mas um dia ousou falar mais e, além de contar-me seu triste fado, me disse haver ganhado muito dinheiro. Se tivesse guardado seria rica. Mas desde a primeira vez que se apaixonara na vida, sempre o fizera de forma errada. Os homens a roubavam no capital, como o primeiro lhe roubara a honra. Àquela paixão adolescente entregara sem saber todos os seus bens, presente e futuro. Entregara a honra, o direito de viver em família, de ter nome e sobrenome... de ter vida!
E nunca apareceu alguém querendo lhe tirar da vida? Sim. Aparecera. Mas eram homens simples, pobres... o orgulho não deixara ir. Se tivesse de casar-se, teria que ser com alguém para ter o respeito do pai. Esse “alguém” jamais apareceu.
Dia após dia naquela luta deprimente, de falsas alegrias e sonhos desfeitos, e o que ficava sempre, confessou-me, era a esperança em sair da vida, coisa que só se deu quando nenhum homem lhe quis mais nos favores da lascívia. Nem os ricos, nem os pobres, nem os jovens, nem os velhos. Virou pedinte. Não tinha sequer sonhos, nem documentos. Perdera tudo de vez.
Esses papos nós batíamos na calçada da loja de Reginaldo Medeiros, para onde, quase todas as manhãs, Núbia também se encaminhava. As meninas davam-lhe alguns trocados e, o que mais lhe valia: atenção.
Em troca, elas recebiam da mulher conselhos de quem vivera os piores estágios de uma vida humana. Era a mesma ladainha, depois da aposentadoria forçada, repetida em um senso único de simplicidade, numa espécie de autoflagelação exercitando um humilhar-se a si própria, tão apurado quanto comovente: “veja o que o orgulho me fez”, reza diária e aconselhadora nos ouvidos das moças direitas.
Quando não estava com sua ladainha na boca, suas frases eram pronunciadas com os diminutivos pelo qual a vida lhe tratava.
- Núbia, o que você come? – perguntei.
- Umas sobrinhas, que eu cozinho numas panelinhas, com um foguinho de gravetinhos – respondeu-me.
- Onde mora?
- Debaixo de uma arvorezinha – confessou com a boca murcha, repuxada para baixo. – Mas durmo numa casinha abandonada, ali depois da ponte.
Um dia alguém veio e levou Núbia. Tantos anos passados afastada da família. Não viu a morte do pai a quem perdoou numa confissão que me fez.
- Perdoei o bichinho – com um resto de pão na boca, olhava para cima como quem procurava o pai no céu, ou trazia de volta as suas piores lembranças doendo-lhe no peito. – Tadinho - exclamava, talvez compreendendo os defeitos humanos.
Teve tempo de assistir a morte da mãe.
Depois, eu fiquei sabendo, os sobrinhos lhe tratavam com respeito e dignidade. Talvez tentando devolver-lhe as coisas perdidas pelo tempo que deu prazer e não sentiu nenhum.
A última notícia que dela tive, há uns quatro anos, contava da vida boa levada na antiga casa grande da fazenda do pai, bem vestida, bem cuidada, bem alimentada, aposentada, assim, recebendo um sobrenome enfim.
Dela guardo uma coisa: o cuidado que devemos ter com um bicho que mata em silêncio: o orgulho. Afinal, já não sou tão jovem.
Hoje talvez eu tema o tempo e a vida.
18/05/2013 Publicada por Jesus de Rita de Miúdo.
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