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José Manuíno

A foto trazida hoje ao fotoblog retrata uma das figuras mais temidas pelas gerações crescidas em Acari dos meados dos anos sessenta, até os anos do meio dos oitenta do século passado, vinte anos de temores e cobertas nos olhos antes do sono chegar para muita gente hoje contando mais de quatro décadas.
Andei muito em busca de uma foto desse homem. Achei de encontrá-la do perfil do Facebook de Antão Lopes, o Lopinho ex-vereador em Acari.
Junto com a foto Lopinho escreveu o texto que copio abaixo na íntegra:

Como estamos em comemoração a Semana Nacional do Museu, faço aqui um pequeno relato de um cidadão que conheci ma minha infância, este cidadão Cruzetense que tinha Acari também como referência de sua convivência, quantas vezes ele passava na casa onde nós morávamos lá no Campo de Aviação, ele repousava durante o dia, enchia a pança pois ele era um grande comedor, podia botar comida numa terrina grande que ele não deixava nada, e a noite ele pernoitava pra no outro dia depois do café da manhã seguir viagem com seus grandes matulões, este homem era e é na foto JOSÉ MANUINO, mais conhecido por ZÉ BURRALHEIRO.

Aqui eu pego novamente na pena eletrônica para escrever. JOSÉ MANUÍNO, também conhecido por Zé Burralheiro, e até por Zé Burrão, ganhou fama de malvado pelas cidades por onde passava. Não por ser homem de má índole, uma vez, coitado, que era andarilho e, na verdade, sofria de certa limitação nas ideias.
Os pais daquele tempo, certamente, sem conhecimento algum de psicologia infantil, davam de pôr temor em seus filhos fazendo alusão ao “Homem do Saco” como sendo José Manuíno. Pelo menos eu creio nessa variável.
Em Acari, além do Campo de Aviação, e conforme relatos de outros internautas no Facebook, parece que gostava de andar pelo campo, indo dos Angicos a outros sítios, comendo feito uma fera (sua fama mais lembrada) e assombrando a criançada por onde passava.
Na postagem de Lopinho reivindicaram sua permanência na cidade em vários lugares: por trás da casa de Tia Suzana do Leite, hospedado pelos pais de Do Céu de Gabriel da Bodega e por trás do antigo matador, sob a proteção dos sogros de Lopinho.
Eu mesmo me lembro dele “hospedado” na área de Pacanã, comendo numa enorme bacia e conversando amistosamente com Dona Neve. Eu segurando na mão dela.
De todas as coisas que vi publicadas sobre Acari no Facebook, mesmo com todo fervor da política passada, debaixo da minha atenção a mais compartilhada foi essa foto de Zé Burrão. Até agora (21:30hs – 20/05/2013) já se vão exatamente 294 reproduções. Isso demonstra bem o mito que se fez do homem.
Muito se falou sobre o homem. De sua lendária fome e capacidade de comer (dizem que seu Guttemberg mandou que cozinhassem um carneiro inteiro, comido por Zé Burrão em quatro horas), da sua força descomunal, dos seus sacos cheios ninguém sabia do quê. De sua voz de trovão... Apareceu até um parente, primo em terceiro grau. O que ninguém falou nos comentários facebookianos foi sobre qual o apelido que José Manuíno odiava. Aquele que o tirava do sério, fazendo-o transformar-se do louco manso para o atirador de pedras.
Hoje, depois do almoço, encontrei por acaso com a Lady Auridete e seu irmão Zé Aurino, ambos ainda de Dona Licota.
Num café do Midway Mall fomos relembrando figuras do nosso Acari, quando citei o achado de Lopinho. Zé Aurino, quase deu um pulo da cadeira. Gritou chamando a atenção de todo o ambiente:
- Tapuru de Imprensa?!
Sim, era esse o apelido que fazia José Manuíno, o Zé Burralheiro, ou Zé Burrão, virar a fera que a sua fama levava às crianças. TAPURU DE IMPRENSA.
Vibrei muito com Zé Aurino, feito dois meninos comemorando uma arte. Olhos desconhecidos mirando a gente.

No rastro de José Manuíno, sob as indagações de Arli Araújo, fui ter no teclado do meu computador a obrigação de escrever sobre outra figura que rodou por Acari. Benedito “Acelera”.

O que sei sobre Benedito, de ouvir falar.
Bendito chegou por Acari nos idos de novecentos e vinte, vindo ninguém sabe de onde. Por aqui foi ficando.
Homem forte no físico, fraco das ideias. Enlouquecia ainda mais se alguém aglutinava ao seu nome a expressão "acelera". Sua conduta calma e amistosa perdia todos os pudores, a rua ganhava todos os palavrões.
Quando não recebia o insulto ele era sujeito tranquilo, paciente e de bom relacionamento social.
Sempre vestido de paletó preto ou azul marinho, presente de alguém, usava tal vestimenta de uma forma singular: mangas arregaçadas, as pernas da calça dobradas no meio das canelas, sem sapatos. Calçava chinelas de couro e pronto!
E por que do apelido?
Benedito tinha um costume de, quando ia andando, repentinamente, dar tipo uma reduzida e acelerar os passos em seguida. Dizem que levantava poeira.
Sem profissão definida, vivia de fazer mandados e, quase sempre, seus préstimos eram requisitados pela força bruta que possuía.
Em um tempo de poucos carros e muita gente esperta, era comum que se aproveitassem dele e da sua índole infantil contrastando com o corpanzil. Era pura inocência também.
Um dia, por sua enorme força, foi contratado para levar um bilhar até Jardim do Seridó. Embora não soubesse muito bem reconhecer dinheiro, saiu de Acari pela madrugada com o bilhar na cabeça para vencer a distância separando as duas cidades. Fazia aquilo muito mais para cumprir sua palavra.
Em Jardim chegou por volta do meio dia, suado e com muita sede. Desde a entrada da cidade passara a ser seguido por algumas pessoas impressionadas com a sua força. Na praça central abaixou a mesa de jogo. Colheu informações sobre o novo dono, marchou para entregar o produto do frete e, por fim, receber por seu esforçado trabalho.
- Nã! – exclamou o proprietário do móvel. – Eu não acertei para pagar o frete de jeito nenhum. Paguei o bilhar em dinheiro e o frete era por conta dele – reclamou.
Benedito não argumentou, nem repetiu o seu preço, tampouco encompridou conversa. Jogou o bilhar de volta na cabeça e retornou para Acari, onde chegou por volta da hora de Maria.
Detalhe: o peso médio de um bilhar com pano sobre pedra, daqueles antigos feitos em madeira de lei, era na faixa de cento e cinquenta quilos.
Coisas do Acari do meu amor, dos seus mitos, minha gente mais que querida.
Benedito faleceu ali pelas eras de sessenta do século passado. Se deixou saudades, eu não sei. Mas deixou suas histórias se confundindo com a da nossa terra amada.
De Benedito “Acelera” eu ando no rastro de uma foto.

Falei acima de dois patrimônios humanos da nossa história.
Voltarei com outro, daqui a alguns dias. Joaquim. Joaquim Vara Verde para ser mais claro.
Alguém aí ainda se lembra dele?

20/05/2013 Publicada por Jesus de Rita de Miúdo.


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