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A vida nem sempre sorrir de forma gostosa para todos nós. Muitas vezes a vida é dura, duríssima para alguns. Talvez sejam fases que ela nos obriga para que possamos crescer e aprendermos mais, nos tornando melhores ou, simplesmente, olharmos com mais sabedoria para ela, a vida.
Naquela segunda-feira, semana perdida e mês não lembrado do ano de noventa e nove, esse ainda bem vivo em minha memória, enquanto eu assistia a moça do RN Notícia dando boa noite e desejando uma ótima semana, eu imaginava como seria para fazer a nossa feira. Tudo quanto eu tinha no bolso eram cinco míseros reais. Parecia que as portas estavam todas fechadas para mim. Duas crianças pequenas brincavam na área da casa de João de Dona Mirian, onde eu morava pela bondade de ambos, ali vizinho a papai. Eram meus filhos Joana e Raul.
É verdade que enquanto eu tomava água ouvi o telefone lá de papai tocando, e ouvi também quando mamãe gritou meu nome. Corri para atender. Era uma ligação de Recife para mim.
- Jesus, rapaz esteja aqui em Recife amanhã de meio dia. Quero lhe encomendar uns bonés – me disse, do outro lado da linha, a voz de alguém que até esquecera de se apresentar.
- Rapaz, amanhã não tenho como, só na quarta-feira.
- Certo. Mas você acha que dá tempo entregar até sexta da próxima semana? Pois preciso iniciar uma promoção na segunda.
- Quantos bonés seriam? – perguntei.
- Três mil bonés.
- Vixe! Seria bom se fosse amanhã. Mas não tenho como.
Aí, depois que eu fiquei sabendo quem era, aliás um cliente antigo meu, começou a negociação: quantas cores, o que levaria pintado, qual o tecido a ser utilizado, forma de pagamento: adiantamento da metade, e o pagamento da outra metade contra a entrega. Aceitas todas as minhas condições. Desliguei o telefone e voltei para casa. Precisaria estar em Recife na quarta-feira, ao meio dia, para poder voltar com tempo de cumprir o prazo de entrega, curtíssimo.
Cinco reais era tudo quanto eu tinha numa carteira, lá dentro do guarda-roupa.
Entrei em casa e vesti uma camisa. Saí para ir ter com alguns colegas na esquina de Seu Basto, para a resenha de todas as noites. Preocupava-me em como conseguiria ir.
Eu passava em frente da casa de Joana de Dodó, quando Miro seu filho, parecendo ter adivinhado os meus pensamentos, me cumprimentou com a seguinte pergunta:
- Saio amanhã para Recife às sete da manhã. Vamos? – perguntou.
Fui me chegando, apertei sua mão e falei.
- Bora!
Mais de uma vez eu tivera o prazer de ir conversando com Miro de Acari para Recife. Uma satisfação pelo bom papo e pela forma como ele me ensinava certos princípios. Acertada a viagem, desci de volta para casa.
No outro dia, fazendo planos que Miro me deixaria próximo do centro de Recife – a empresa onde eu teria que ir ficava na Cruz Cabugá, vizinha ao Parque 13 de Maio - e eu sabia que o escritório da empresa dele era pras bandas de Boa Viagem, dos cinco reais que eu tinha deixei três com Vigélia e seguimos em busca de Recife. Dois reais dariam para pegar um ônibus indo até o parque onde meu irmão Josébio tem uma lanchonete/bar até hoje.
Não me lembro onde paramos para tomarmos água. Quando Miro, que havia sacado dinheiro antes de sairmos, foi pagar, a moça não tinha o troco para a nota de cinquenta que meu amigo segurava.
- Jesus, você tem dois reais aí? – me perguntou.
E eu lá ia mentir? Podia até ter dito que só tinha em notas de cinquenta também. Mas abri a carteira e lá se foram meus dois reais.
Bom, paciência! “Quando ele estiver passando no ponto mais próximo do centro, peço que pare e vou a pé mesmo”, era o que eu ia pensando. Já era acostumado a andar muito assim vendendo bonés.
Chegando em Recife, logo na entrada, Miro disse que iríamos almoçar a melhor picanha de Recife no restaurante da Cidade Universitária e que dali voltaria para fiscalizar uma obra. Ainda me perguntou se estava bom para mim. E eu lá ia dizer que não?
Só sei que, não sabendo como faria para chegar ao Ibura de Baixo, onde meu irmão Josébio morava na época, sem saber que horas teria outra refeição, comi tudo quanto podia e da Coca-Cola de um litro que chegou a mesa, para matar a sede por antecipação, não deixei um pingo.
Quando nos despedimos com um aperto de mão, o relógio passava um pouco das quatorze horas. Marchei em busca do Ibura de Baixo, na direção que eu julgava ser a certa. Uma mochila com amostras de bonés, mais um par de roupa, era levada em minhas costas.
Andei tanto que perdia a noção de onde estava. Mais de uma vez parei qualquer pessoa e perguntei se estava indo na direção certa. Um homem chegou a assobiar quando eu disse que estava indo a pé. Outro, talvez mais gaiato, perguntou se era promessa.
Às sete da noite parei num barraco, pedi água e me sentei numa das mesas. Ainda bem que percebi o cara com uma garrafa de mineral. Ia abrir, mas eu gritei que não tinha dinheiro. Ele me serviu da torneira mesmo. Tive que esperar a água esfriar, de tão morna que estava.
Voltei a caminhar. Se eu disser que não lembro a hora exata que cheguei no apartamento, não estarei mentindo, apenas que era perto da meia noite. Os pés estavam com calos por tudo quanto era lugar, apesar do tênis confortável e bem usado. Não tomei banho. Amornei água e pus meus pés dentro, planejando o que faria no dia seguinte para chegar até o meu destino. Pediria cinco reais emprestado ao meu irmão, dizendo que não tinha dinheiro trocado para o coletivo. Adormeci entre esses planos. Acordei com Josébio abrindo a porta e se surpreendendo comigo ali. Reclamou de forma simpática porque eu não o havia avisado. Nem lembro bem o que lhe respondi, adormeci novamente.
Quando acordei no outro dia que procurei por ele, já havia saído fazia tempo. Agora era pôr em prática o plano B. Mas que plano B? Não havia pensado nisso, nem aguentaria andar tanto a pé novamente.
Não sei quantos ônibus peguei sem pagar. Ia até onde o cobrador, que naquele tempo ficava na parte de trás, me mandava descer. Mas por fim cheguei na empresa. Recebi a metade do dinheiro e voltei com a encomenda nas mãos para Acari, onde os bonés foram confeccionados na fábrica de Armando Etelvino.
Na sexta-feira acordada consegui cumprir a entrega. Naquele dia eu tinha exatamente setecentos e quarenta e três reais no bolso. Feira garantida por dois meses, naquele tempo.
Já passei por outras situações depois daquela. Algumas parecidas, outras não. Algumas talvez até mais complicadas.
Hoje em dia me orgulho e conto todas elas nas rodas dos melhores amigos, porque acredito que, apesar de lembranças de certa forma tristes, fazem parte do amadurecimento do menino de Miúdo. O mesmo que conta, sem saudade alguma, que um dia saiu com dois reais no bolso para Recife e chegou lá liso. Mas como uma vontade de ser digno que dinheiro no mundo algum pagava. A mesma vontade que o fez adentrar os limites da faculdade, de onde sairá em poucos dias com a mesma intenção de ser digno herdada de quando não tinha dinheiro algum nos bolsos e andava como sem rumo pelas ruas do Recife para vender bonés.
03/07/2009 Publicada por Jesus de Miúdo.
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Caro AMIGO Joselito, (como gosto de lhe chamar) lendo este texto que retrata sua vida, chego a ficar emocianado, me lembrando de quando ia para sua facção para lhe dar forças moral e tb receber de sua parte pois estavamos na mesma situação, graças a DEUS vc hoje conta o q passou sorrindo, pq conseguiu superar a crise com sua capacidade, simplicidade e competencia. Parabéns a vc pelo seu susseço, desejo-lhe td de bom!!!
04/07/2009 11:22
Fagner lima
rengaf691@hotmail.com
Acari/ RN
A maior grandeza dos homens de bem, homens com "H" maiúsculo, é não negar o seu passado.
04/07/2009 04:40
Edmundo Eugênio Dantas Filho - "Edi"
edmundoedf2@yahoo.com.br
Acari/Jaçanã/Natal
Parabéns Jesus pelo exemplo de vida que você dá contando das suas dificuldades, se todos pensassem e fizessem como você, com certeza não existiria tantos pedintes e desocupados, quando se quer vencer começa-se assim enfrentando barreiras e tropeçando para levantar-se depois com dignidade e um futuro brilhante e promissor como o seu,e com certeza você deve muito aos seus pais por ser essa pessoa batalhadora e de bem com a vida.Um abraço aos meus amigos Rita e Miúdo.
03/07/2009 22:15
Lourdes
joaoelourdes@hotmail.com
Parnamirim/RN
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