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XI Cavalgada Ribeiras da Acauã - JUAREZ PIRES GALVÃO

O sábado acordou com a lua cheia sobre o céu dos sertões. Na Praça Otávio Lamartine, ícone da coragem e valentia do homem sertanejo, exposto numa homenagem bem no coração de Acari, uma ruma de homens já se congratulava numa alegria indisfarçável. Entre eles, eu. Esperávamos por outros pares, pegaríamos as veredas para a fazenda de João Roberto para nos juntarmos a outros tantos e, dali, marcharmos em cavalgada para a bela propriedade de Chico Severiano, A Boa Vista, no município de Frei Martinho.
Caíto puxou a turma e se foi na frente. Horacinho, rindo muito na direção com os papos dentro do seu veículo, levou os que sobraram. Chegamos ainda escuro no jardim lateral da belíssima casa de João, bem administrada por Dona Hilda sua esposa, na Fazenda Caiçarinha. A lua por testemunha.
Os animais já estavam sendo preparados. Porém, enquanto não dava a hora, a prosa foi se formando em muitas rodas, registradas atentamente pelas lentes de muitos, em especial a profissional de Roberto Limeira.
Apertos de mãos, abraços apertados e saudações sinceras foram matando a saudade de uns e de outros. Caravanas chegando de tudo quanto era lugar do Seridó e dalém fronteiras deste chão que Dr. José Augusto chamou de civilização. Assim, formávamos uma certeza: teríamos a maior cavalgada de todos os tempos.
Dr. Neto Veterinário, com um caderno na mão, acomodava em seus assentamentos os nomes de todo aquele que iria montado, enquanto fazia o papel de elo entre alguns desconhecidos, apresentando um a outro e respondendo pacientemente a muitas perguntas. Além dos vaqueiros profissionais e dos aventureiros, como eu, muitas pessoas se fizeram presentes, entre eles, prefeitos de três cidades, um deputado estadual e outras autoridades, mais parentes e amigos. No final, nas contas de Dr. Neto, cento e quarenta e nove animais partiriam dali com o mesmo destino.
Quando o dia clareou de vez a mesa foi descoberta. Um lato café esperava pelos intrépidos. Era necessário forrar a barriga. Todo mundo comeu e se fartou. Começaram, então, as homenagens.
O menino João Aprígio, filho de Dr. Neto, puxou uma vaquejada virtual honrando e trazendo à nossa memória os nomes dos mais valiosos vaqueiros do nosso chão Seridó. Um filme passava na cabeça daquele compenetrado na música saída do jovem João. Sim! Aquilo era música. No melhor estilo “narrador de vaquejada”, o menino nos trouxe todos os grandes puxando boi pelo rabo numa faixa imaginária, porém bem vista em nossas saudades. O vaqueiro Jojó de São Tomé no lugar do julgador. Validava o esforço. Valeu o boi!
João leva jeito. Não demorará muito estará no circuito profissional com a sua voz marcando e cantando boi na faixa por esse Brasilzão afora.
Vários discursos foram marcando outras homenagens, entre elas a mais emocionante e feita ao vaqueiro Zé Dudu, cabra bom andando na casa dos oitenta anos e cavalgando o corcel da mais absoluta simplicidade. Ele se emocionou agradecendo a lembrança do seu nome, em breves e, com empolgantes palavras na eloquência comum aos humildes, contagiou de emoção todos ali presentes.
Toinho Medeiros, filho, neto e bisneto de vaqueiros, herdando de outras tantas gerações para trás a vida de gado, chamou-me para entregar-me um animal, que eu montei com certa dificuldade.
Depois dos agradecimentos de praxe, por fim, no meio da manhã nublada, partimos em cavalgada. À frente da comitiva seguia o garoto Gabriel Araújo Braz - dividindo a sela com seu pai Gustavo Braz - ainda em sua primeira infância, mas já ganhando as veredas abertas na caatinga seca, aprendendo a respeitar e amar a nossa cultura. Ele mesmo, Gabriel, filho, neto e bisneto de vaqueiros por todos os lados! Pelo caminho, adiante, mais vaqueiros apareciam. O sol por testemunha.
Brigadeiro e Nedalvan Bezerra gozaram da hospitalidade de Iracema e Zé Brabo, onde fizeram o seu desjejum, e do Bico da Arara para frente foram parte da caravana.
E, como sempre, a história do lugar ia sendo contada aos vaqueiros de outras terras. Se mostrou o Ingá, o Bico da Arara com suas boas coisas e com as suas lembranças doloridas.
A caatinga seca, a terra feita em pó, o calorão tomando conta de tudo. Embora meio nublado o dia era típico do sertão. O vento quase parado...
Montado num burro de Silvino Medeiros Neto, eu ia sofrendo as dificuldades de quem não tem a prática. Caíto, vendo aquela minha luta, contou-me a história. Silvino Neto separara para mim, de propósito, um animal “xotão”. Para complicar a minha empreitada o danado só andava atrás da égua do dono. Silvino Neto, entre risadas e piadas, ia tentando me ensinar a prática de coisas impossíveis de realizar sobre um animal daquela natureza.
E, num pequeno erro de percurso, quando tomamos uma vereda à esquerda, sentindo falta da égua, o burro saltou umas varas caídas e embrenhou-se pelo cercado de juremas. Eu, assustado sobre ele, retendo com a força que podia todos os couros das rédeas e das cordas do cabresto, mesmo assim, fui levado numa acelerada corrida. De quebra três pequenos cortes no rosto, alguns arranhões no braço direito e o batismo de sangue na caatinga amada há tanto tempo. Espinho na cara e mais paixão por tudo aquilo, como num ato de magia.
Haroldinho, meu primo, vaqueiro acostumado e vencedor em diversas competições de “pega de boi no mato”, vendo a aflição do parente matuto para montarias, ensejou trocar de animal. Coisa que fizemos com a aquiescência de Caíto, dono do animal cavalgado por Haroldo.
Isso fizemos depois da parada na Fazenda Olho d’Água do Bico, em casa do casal Francisco Dumont e Vânia Bezerra, onde ficamos por cerca de quarenta minutos, degustando quitutes, muitas carnes, frutas, caldos e outras iguarias presentes na mesa farta, além da cerveja rasgada e da caninha posta à vontade, com a poesia de Manuel Bandeira declamada por Francisco Sales servindo de inspiração às nossas almas e aplaudidas por todos. Foi lá que brindei com Félix Bezerra e Chico de Onessino, à nossa saúde e dos demais, com uma lapada da legítima Samanaú gelada. Ainda não era meio dia.
Dali nós marchamos divididos, eu acompanhando em minha nova montaria o grupo de Gustavo Braz e Chico de Onessino, levados pela paixão da cultura herdada dos ancestrais e, também, pelo combustível Samanaú guardado com carinho por Gustavo. Porém, eu ficando no primeiro e último gole.
Chico ao meu lado, elogiando os passos do Burro Preto de Caíto, foi me ensinando traquejos e ordens nas rédeas que o animal, muito mais manso que o primeiro, respondia. E, como a cavalgada é antes de tudo um prazer em falar sobre os troncos mais antigos desses sertões que nos têm, lembramos saudosos da espetacular capacidade em adestrar e reconhecer um bom animal para a sela, dom do meu saudoso primo Wílson Pereira, sogro de Chico. Do primo Wílson eu costumo refletir da seguinte forma: sertanejo valente, vaqueiro e agricultor, possuidor dos costumes e testemunha em vida do sofrimento do nosso povo. Sujeito pacato. Alma nobre.

(Continua da postagem anterior)

27/05/2013 Publicada por Jesus de Rita de Miúdo.


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